sábado, 4 de agosto de 2018

Jornada Olhares - Meu diário de bordo - Parte 02

Possivelmente, você nunca ouviu falar sobre Espinho. Isso mesmo, Espinho com E maiúsculo! Ao menos se você for natural da cidade de Limoeiro do Norte-CE, região do Vale do Jaguaribe, Espinho é um distrito localizado na zona rural desse município e sim, nós fomos até lá.

Acordamos às 04h da manhã, como de costume nas aplicações do Game Olhares para todos os facilitadores. As passagens foram previamente compradas para o primeiro ônibus do dia, às 6h da manhã rumo à Limoeiro, mas deveríamos parar antes da cidade, segundo orientações...me acompanharia o Gabriel, nosso facilitador para aquela localidade, porém, ele ficou doente um dia antes da aplicação e como eu já iria, eu iria aplicar a primeira oficina do nosso jogo. Eu estava com duas passagens compradas em mãos...ai pensei que poderia chamar alguém para vivenciar isso comigo. 

Eu sou empreendedora, né? Tenho mil ideias por minuto...eu já havia pensado em trabalhar com a Luíza, nossa personagem de hoje, em alguns programas do Social Brasilis (meu empreendimento). Eu tenho uma espécie de "feeling", algo que me diz que devo investir em algo ou alguém. Foi assim quando eu conheci a Luíza, em uma parceria linda com o time Enactus UFC. Uma jovem, quase engenharia metalúrgica à época. Pois é...peguei uma engenheira e levei para o sertão para encontrar mais de 40 jovens para aplicação de uma metodologia educacional, social e gamificada (é...só isso!). Encontre os metais da metalúrgica nisso, rsrs!!!! Pois é...nada a ver. Mas feeling é feeling e eu confio no meu e partimos.

Eu e Luíza rumo à Espinho!

Para começar...não imaginávamos como era longe Limoeiro...passou 2h, passou 3h e nada. Foram quase 4h para chegar lá. Lembram que saímos às 6h da manhã no primeiro ônibus? Não foi suficiente porque a turma era às 08h...então os jovens nos aguardaram, pacientemente, até as 10h. Descemos no meio de uma encruzilhada, meio do nada. Demos um giro de 360º eu e Luíza...no lado direito tinha umas casas ao fundo, do lado esquerdo a torre de uma igrejinha amarela ao fundo. Resolvemos seguir pela estrada em direção à igreja (sabe, né? Igreja, centro, centro de cidade interiorana...sacou o raciocínio? rsrs). E andamos...fiz uns stories, conversei com a Luíza...aí parou um carro ao nosso lado, era o educador da instituição que veio nos pegar. Foi bem rápido para chegar ao local da oficina...e cheguei, cheguei, chegando, balançando a zorra toda (LUDMILA, 2017), fui logo iniciando a oficina assim que entrei na sala. Os jovens já aguardavam a 2h e não mereciam isso.

E foi demais!!! Se envolveram, se divertiram com as atividades e Luíza só observando. Ela estava tão preocupada na expressão, meio que em pânico daquela quantidade de jovens e muitas atividades e etc...que eu pensei:---Pronto, traumatizei a menina! Essa nunca mais vem!


Juventude de Espinho - Limoeiro do Norte-CE
Ao final do dia, eram duas turmas na cidade...uma na manhã e outra a tarde, a da tarde era totalmente diferente da primeira. Jovens totalmente apáticos, o facilitador tinha que ter experiência para puxar o interesse da turma, a interação...era difícil! Mas um caso totalmente normal nesse trabalho com esse público e exige de nós empatia para entender a posição e o viver desse jovem. Ao final de tudo, estávamos mortas e encaramos as 4h de volta para casa...puxei assunto com a Luíza, pra saber o que ela tinha achado, e ela falou...muita coisa, né? E eu fiquei...matei a menina, mesmo! Mas é aquela coisa...feeling é feeling...eu acredito no meu!

Cheguei em casa e me perguntaram: e aí...como foi com a Luíza?

Eu: Traumatizei a menina!

Todos reagiram assim:

via GIPHY


Vocês verão esse feeling em breve, aliás, capítulo.

Missão Cariri 

Já estava preparada para o que chamamos de "Missão Cariri", encarar 10 cidades em dois Estados. Maior missão de logística e organização que recebemos até então. E eu...fui logo na primeira leva de viajantes para a região. Eu tinha que escolher quem acompanhar nesse primeiro momento, então optei pelos percussos de difícil acesso para vivenciar junto com o educador essa experiência. Aí...escolhi o sertão pernambucano junto ao Elvis, outro protagonista desse capítulo.

As cidades eram Moreilândia-PE e Cariri Mirim, zona rural de Moreilândia. O acesso a essa cidades era muito difícil. Tinha uns carros de horário e iriam até as 14h no Crato (Cariri cearense) e eles eram tipo adaptados (aquelas D20 abertas) e a estrada era de terra (tipo rally)...e no primeiro momento não tínhamos como chegar e ai...a Super Cris, junto a sua turma resolveram nos ajudar nos levando até Cariri Mirim e depois Moreilândia (a equipe do ChildFund Brasil no Cariri).<3 p="">

Partimos de Juazeiro do Norte-CE, passamos no Crato-CE e seguimos serra a cima rumo a Cariri Mirim que eu não conhecia. No percurso, fomos em cinco pessoas na estrada de terra, cheia de desafios, conversando sobre tudo, sobre tudo mesmo...acabava as histórias e não acabava eram os buracos da estrada. Poeirrauuuu grande!

No momento...conversas sobre filmes (Elvis à frente).


Ouvi histórias sobre Barbalha-CE e suas festas, ouvi sobre a rivalidade de Crato versus Juazeiro e ouvi sobre as onças...sim, a estrada, diz a lenda, é repleta de onças. Caro leitor (a) fixe nessa onça por favor...ela será personagem do próximo capítulo dessa saga.

Clara, em um buraco e outro que nos desviávamos, nos contou que a estrada era repleta de onças...e a estrada naquelas condições era muito fácil furar o pneu e aí que mora o perigo...porque não tinha nada ao redor, era ermo, no meio do nada e ai que as onças vinham. Imaginem a cena, um carro no meio do nada (sertão) com onças dando voltas, todo mundo gritando e uma vinha, dava uma patada no vidro do carro. Eu imaginei isso, rsrs!

Chegamos em Cariri Mirim, um pouco mais de 2h depois.

Uma localidadezinha, um vento frio (tinha uma serra ao redor), ninguém nas ruas, as casas em formato de vila...um cenário de um filme, já assistiu auto da compadecida? Pois é... vejam no vídeo abaixo:
Elvis Alves fazendo esse convite!


Jovens ávidos nos aguardando. Foi massa!!! As atividades...quando usaram a nossa plataforma virtual de aprendizagem (ah, detalhe...não tinha sinal de telefone, ficamos incomunicáveis!), usamos o Wi-Fi da instituição para acessar nossa parte virtual do Game Olhares. Os jovens usavam tablets, celulares, computadores, o que dava para logar. Foi uma cena linda de inclusão digital, de chegar nas pontas, onde ninguém chega, onde ninguém vai.

Juventude de Cariri Mirim-PE

Ficamos satisfeitos, porém, preocupados porque encontramos jovens sem expectativas de futuro, sem entusiasmo, sem motivação. Uns que sequer concluem os estudos e vão para a lavoura, para os canaviais, que antes disso sequer adquirem visão de mundo, de conhecimento, de buscar o melhor, porque o que é imposto para eles é aceitável, porque desacreditam deles mesmos, não conseguem mudar seu mundo e muito menos da sua comunidade.

O que vimos foi além das dificuldades de acesso logístico ou da falta de comunicação móvel, foi a figura do nosso interior brasileiro, que marginaliza pessoas, famílias na ignorância de não saber quem são e que são não capazes e que possuem o direito de mudar a sua realidade através de uma inclusão digna, de uma educação inclusiva, libertadora e social, mas acima de tudo, como cidadãos brasileiros como todos somos. Precisamos repassar esse olhar para todos. Esse foi mais um aprendizado nessa jornada.


Aguarde o próximo...

Se você não viu a parte 1 dessa jornada clique aqui e acompanhe essa série!

Abs!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...