domingo, 22 de julho de 2018

Jornada Olhares - Meu diário de bordo - Parte 01

Nos últimos meses, encarei uma verdadeira jornada em busca da transformação social mas, sobretudo, em busca da comprovação do meu propósito de vida.

Acredito que não há maneira mais eficaz de comprovar seu propósito de vida e missão nesse mundo do que colocando tudo à prova sob fortes pressões e em condições extremas. Condições extremas, foi isso que vivenciei nesse primeiro semestre de 2018 através do meu trabalho como empreendedora social.

Para quem não me conhece, eu sou empreendedora social, cearense, ativista social e fundadora do Social Brasilis - um negócio social que desenvolve programas educacionais e corporativos mediados pela tecnologia digital para fomento de novos negócios sociais, ações e tecnologias sociais que causem impacto social positivo através de pessoas - você pode conhecer melhor em nosso site aqui. 

Portanto, esse artigo contará um pouco sobre a aplicação do nosso maior programa educacional que já desenvolvemos até agora, o Game Olhares, uma metodologia gamificada para o público jovem para o desenvolvimento de habilidades empreendedoras e incentivo ao protagonismo jovem. Esse programa passou por mais de 16 cidades em 03 Estados Nordestinos e é sobre essa jornada pelos interiores do Brasil que quero compartilhar. Esse será o primeiro de cinco artigos sobre essa viagem social.

A Missão Vale do Curu

Embarquei, junto aos nossos educadores do Social Brasilis, para acompanhar as oficinas, conversar com jovens, educadores sociais e gestores de organizações sociais para conhecer suas histórias, ver seus rostos e saber o quanto nosso trabalho, de fato, contribui com o mundo. Tive sede de agarrar essa oportunidade depois que passei meses debilitada por uma doença rara que me levava a ter fortes hemorragias, passei por diversos hospitais, fui internada duas vezes e passei por duas cirurgias nos últimos meses. Após 10 longos meses de extremos cuidados, com dificuldades de caminhar e sem condições para o trabalho, fui liberada pelos médicos para voltar à ativa 100% curada. Aí sim, peguei minha mala, saí pelo mundo para fazer o que mais gosto, meu trabalho social. 

Eu passei por muitas cidades nos últimos dois meses com um trabalho em parceria com o ChildFund Brasil - Fundo internacional de apoio para crianças e adolescentes através do apadrinhamento. Recebemos deles a missão de trabalhar com jovens de instituições sociais ferramentas digitais, empreendedorismo, gestão e execução de projetos de forma divertida e prática. Eis a missão Game Olhares.

Comecei meu tour pela região do Vale do Curu no Ceará - zona oeste do Estado- parti para as cidades de São Luís do Curu, Itapipoca e São Gonçalo do Amarante, nessa primeira aventura a equipe do Canal Futura nos acompanhou para registrar como trabalhamos com a inovação em nosso empreendimento.


O transporte principal nesses interiores é topic - começou ai nosso suplício. Não tinham notas fiscais, a maior parte da viagem era feita de pé, lotadas, sem conforto e em péssimas condições - até briguei na volta de Itapipoca para Fortaleza, fiz a louca do "quero meu recibooo, tenho direitoo, rsrs". Era assim o percusso dos nossos educadores de São Luís do Curu e Itapipoca que saíam das cidades de Tejuçuoca e Sobral para dar oficinas nessas cidades em respectivo. Saiam as 4h da manhã, todos os sábados, para chegar ao local da oficina e no caso de Itapipoca o nosso educador (o Matheus) saía um dia antes, dormia em um distrito ou na casa de alguém da instituição para dar a oficina no outro dia, isso por 06 semanas consecutivas de aplicação da metodologia do game.

Eu e Matheus nosso educador em Itapipoca-CE

O que me surpreendeu nessa prática é que, com todas essas dificuldades, nós encontrávamos as seguintes justificativas:

-Ah, hoje os jovens não virão porque não acordaram.
-Ah, hoje terá uma festa na cidade e não terá encontro.
-Aqui ninguém é educado para a tecnologia, a cidade nem pensa nisso, por isso os jovens não vem.

Por ai vai...eu pensava sempre que hiper motivação teríamos que ter para continuar com todas as dificuldades e recebemos respostas assim. Coloquei educadores com histórias de vida muito legais e que passaram por programas do Social Brasilis anteriormente como beneficiários e que passaram a contribuir para que outras pessoas passassem, também, por um processo de empoderamento. Eu não estava sozinha em busca de testificar se o que estava fazendo mudava vidas, mas eles também estavam nessa comigo sendo testados.

Lembro, em uma conversa com a Adriana, nossa educadora, do encontro que ele teve com uma senhora dentro da topic quando voltava de uma das oficinas do jogo em São Luís do Curu-CE. A senhora, aparentando ser bem religiosa #sqn, a questionou sobre o que ela fazia e em seguida fez um comentário: Não vale a pena fazer o que você faz, é um sofrimento muito grande para nada. Para alguém que está cansado, colocando em prova aquilo que acredita, fazendo algo para o bem e em dificuldades não é nada legal ouvir algo assim. Porém, vimos sonhos de jovens, colocados em forma de árvore (uma dinâmica que fazemos), sonhos para a educação, condições de emprego na cidade (o jovem tem que migrar para trabalhar e estudar), lixo nas ruas, falta de lazer, jovens que sonham com a universidade, mas que a veem muito distante de sua realidade.
Eu e Adriana na parada do ônibus (no meio da estrada) em São Luís do Curu-CE

Ouvi muita coisa deles também durante a avaliação nessas cidades:

"O game foi muito legal, foi uma preparação para a universidade...nos ensinou "a mexer" em uma plataforma virtual, nunca havia visto algo assim antes...muito massa!"

"O legal do game é o conteúdo que está na plataforma, alguém viu? Lá tem uns vídeos legais, tem um falando de sonhos e super-heróis, me fez ver que a escolha da nossa profissão é uma decisão só nossa, indico a todos estudarem o conteúdo porque é muito bom."

"Eu achei que era uma gincana e eu odeio gincanas...mas quando vi que tinha essa parte de projetos, de ter que fazer um mesmo que gere significado para a vida dos outros, eu adorei."

"Aprendi tanta coisa...agora sei o que é drive, e-mail, postar vídeos e fotos. Aprendi a falar em público, era muito difícil pra mim."

Pedi pra eles também relatarem suas experiências durante a execução de nosso trabalho:

Jéssica Morais de São Luís do Curu-CE


Matheus Dias, educador Social Brasilis em Itapipoca-CE

Vi projetos acontecerem tímidos, com dificuldades, mas com impacto social. Sonhado, planejado e executado por jovens. Vi inclusão digital, jovens que não tinham e-mail, não usavam a internet pra nada além de redes sociais.



Agora, eu lembro daquela senhora no ônibus questionando a Adriana e a todos nós que tentam fazer algo para mudar a realidade que vivemos e que somos vítimas das mazelas da mesma. Meu bem, nós, ao menos, estamos fazendo algo para de fato mudar a sua e muitas realidades de pessoas por onde passamos. Levante-se e faça você também sua parte do trabalho, que é um trabalho de todos nós, ninguém veio ao mundo à passeio.

Esse foi o aprendizado do primeiro tour...

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